O MEDO DE ASSUMIR

Na construção de nossa imagem positiva, muitos subterfúgios conscientes ou inconscientes se aninham. E a rede das nossas racionalizações funciona.

Racionalizamos constantemente. Para nos desculpar. Para nos defender. Para nos tranquilizar. Para nos evadir. Para não darmos o braço a torcer. Para rejeitar derrotas. Para não modificar raciocínio, ideologia, conduta, pontos de vista, posicionamento, opiniões.

Ao racionalizar, consciente ou inconscientemente, muitas vezes procuramos “bodes expiatórios”, num gesto de fuga de quem lava as mãos. Os culpados são sempre os outros... Tentamos salvar nossa pele. Sair pela porta dos fundos.

No âmago das racionalizações esconde-se, quase sempre, o receio da autocrítica, o temor de assumir, a vocação de abafar. Defendemo-nos, consolamo-nos, jogando as pedras em telhados vizinhos.

Racionalização: saída simplista, ilusória, para descarregar sentimentos de culpa, insegurança, mediocridade, fracassos, problemas não resolvidos ou mal enfrentados, mal conduzidos. Subterfúgio ilusório para encontrar abrigo atrás de uma árvore, como fizeram nossos primeiros pais, no paraíso terrestre.

É uma pena...após milênios não aprendemos ainda as mais rudimentares lições de humildade. Visamos Adão e Eva, descartando responsabilidades, não assumindo nossos erros: “Foi Eva que seduziu...” “Foi a serpente que enganou...”

As mamães super protetoras (são tantas, não é?) costumam invocar o senso de responsabilidade:

- Graças a Deus, não sou como tantas outras que não sabem onde andam seus filhos! Vigio e controlo os meus, por ser mãe responsável!
Os papais nervosos, inseguros, atabalhoados, confusos, apelam para o rótulo da abnegação:
- A gente se mata em mil tarefas pelos filhos. O peso da abnegação me deixa exausto. E eles, ingratos, rebeldes, não reconhecem. Dei sempre o melhor de mim mesmo. Tudo em vão: meu esforço caiu no vazio...

Sim, há filhos ingratos, descorteses. Como também pais inseguros, inábeis educadores. Tanto uns como outros, não raro descartam fraquezas e responsabilidades, desculpando sua consciência, conseguindo álibis, forjando bodes expiatórios. Com medo de assumir seus defeitos e flancos vulneráveis.

“ Confessar que nos enganamos, é reconhecer que temos um erro a menos.”





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